O Fórum em Defesa do Código Florestal, que reúne entidades ambientais,
sociais e sindicais, vem a público manifestar sua posição:
Sim, é verdade. O caos ambiental,
previsto para algumas décadas à frente,
chegou mais cedo do que se pensava.
Como se fosse título de filme, O
FUTURO É HOJE. Apenas no Japão, tão
distante de nós, onde o desastre se estendeu
para a área nuclear? Não, não
só lá. Aqui também temos uma possível
tragédia anunciada. O número de
usinas nucleares não para de crescer:
Angra 1, Angra 2, Angra 3 e mais quatro
planejadas pelo governo. E o que
diz a Comissão Nacional de Energia
Nuclear? Que é cedo para recuar...
Mudança no estilo de vida, uso de energias
alternativas não passariam de devaneios
dos sonhadores ambientalistas.
E, entretanto, o Brasil é um país solar.
Mas o MERCADO é cego para isto:
energia tem que dar lucro, mesmo que
seja para destruir; o transporte tem
que ser individual e poluente. Bicicleta?
Nem pensar...
Por que não se pensa em produzir
energia de fontes realmente muito mais
limpas, neste País tropical, como a
eólica e a solar, que já abastecem, em
países da Europa, o equivalente a quase
40% da energia gerada aqui no Brasil?
Por que seguimos investindo em fontes
poluentes como as nucleares, as
térmicas a carvão e as hidrelétricas
(que liberam gases de efeito estufa) e
desalojam ribeirinhos para garantir
mais energia para exportação maciça
de matéria prima (alumínio, ferro, cimento,
celulose)?
E o que dizer da contaminação da
nossa água, num país campeão de uso
de venenos agrícolas? Como se isto não
fosse suficiente, os MERCADORES dos
nossos recursos hídricos começam a se
organizar para privatizar um dos nossos
bens mais preciosos: a água. Eles contam
para isto com o Aqüífero Guarani,
ignorando também as grandes extensões
de plantio de pinus e eucaliptos,
assentadas sobre o aqüífero, contaminando
e sugando as suas águas.
A ideia do PARAÍSO TROPICAL vem
se desmanchando dia a dia, como se
desmancham os topos dos nossos morros,
arrastando consigo milhares de
vida: Rio de Janeiro, Paraná, Santa
Catarina, São Lourenço...
Os constantes alertas dos ambientalistas;
as cenas catastróficas que já
viraram cenários diários nas TVs; secas;
desmatamentos; enchentes; desmoronamentos
de cidades; o luto coletivo,
nada. Nada tem conseguido barrar os
destruidores do meio-ambiente: os permissivos
donos do poder e os gananciosos
donos do dinheiro. Ganância e poder
andam juntos: aliança imbatível?
Mas, ainda pode piorar. Não satisfeitos
com este cenário devastador,
ELES propõem alterações naquele que
é a espinha dorsal da nossa legislação
ambiental: o Código Florestal Brasileiro
(CFB), de onde vem a proteção das
nossas florestas, da nossa água, dos
nossos morros, da nossa biodiversidade
enfim, das nossas riquezas naturais,
patrimônio genético e cultural da nação
brasileira.
Contrariando todos estes princípios,
o projeto de alteração do CFB, cujo
relator é o Dep. Aldo Rebelo (PCdoB),
aumentará os riscos de desmatamento,
secas, fome, enchentes, desmoronamentos,
para garantir a paisagem
desértica das monoculturas da
acumulação. Então, por que esta insistência
em alterar rapidamente o Código?
Quais os interesses que movem os
defensores destas alterações?
Talvez o site do TSE nos dê uma boa
pista: encontra-se ali uma lista de grandes
empresas estrangeiras, principalmente
de celulose, mineração, venenos
agrícolas, transgenia e produtoras
de grãos, entre outras, que financiam
as milionárias campanhas eleitorais de
boa parte dos nossos parlamentares ligados
ao setor degradador do meio
ambiente, que agem como se fossem
os seus representantes. Essas empre
sas, ligadas ao agronegócio, buscam
ampliar as suas áreas de plantio em
nosso território, aumentando as exportações
e, consequentemente, os seus
lucros, afrontando nossa soberania alimentar.
Entendemos que defender o CFB, atualmente
em vigor, é defender as nossas
riquezas naturais, a nossa soberania, o
nosso meio ambiente, fonte de trabalho
e de sobrevivência, tanto para a população
do campo quanto para a cidade.
Mas qual a relação disso
tudo com a Copa de 2014?
Bom, talvez possamos chamar este
evento como a “Copa-Business 2014”.
Por coincidência, muitas empreiteiras
que degradam a natureza, em obras
faraônicas, e financiam os parlamentares
- seus representantes - estão fazendo
parte deste jogo. E o pior é que
a maior parte da população potencialmente
atingida por estes empreendimentos
será representada pelos mais
pobres, obrigados a um desalojamento
em massa, para as áreas periféricas
das cidades. E, mais uma vez, para levar
adiante os grandes empreendimentos
do capital degradador, encurtando
ainda mais os prazos para as licençasambientais, e criando uma LEGISLAÇÃO
DE EXCEÇÃO para derrubar a proteção
ambiental e escantear, para bem longe,
os mais pobres.
Cabe aos movimentos sociais o papel
de avaliar as investidas daqueles que
querem se locupletar com a expansão
insustentável de atividades que degradam
a natureza. Os mesmos responsáveis
pela crise ecológica grave porque
passa o Brasil e o Mundo. Vamos defender
o Código Florestal, contra a proposta
que anistia os desmatadores e
garanta as conquistas de proteção da
nossa biodiversidade, pois sem formas
mais inteligentes de convívio com a
natureza, estaremos comprometendo
ainda mais a Vida neste Planeta.
Porto Alegre, 25 de Março de 2011
Fórum em Defesa do Código Florestal